domingo, 6 de março de 2011

SONHO

Corre solto o sonho,
selvagem,
morde a carne doente de realidade,
e idades.
Sonho imagem
projeto , vertigem
origem
das lembranças imersas no Id
idéias ,tiques ,
argamassa das horas ociosas ,indolentes
nessa existência-demente , que passa ,
vida sem sonho, sem graça.
(7/8/91)

SOLIDÃO

Descrever tua ausência
é tramar contra a sanidade
trair a austeridade serena
imposta pela dignidade
Recordar  noites , tardes ,
(meu corpo lembra e arde )
embora até para recordar
seja demasiado tarde.
Como eu envelhecestes .
Paixão igual não terás ;
busco-te em outro corpo
que de igual paixão seja capaz .
Uma mulher , múltiplos corpos ;
um homem , solitário , sem paz .

RIO

Penso todos os dias
em tuas tristezas , alegrias ,
chacinas e orgias ,
mesclando-se com naturalidade.

Penso na tua força
na energia no ar ,solta ,
nas místicas montanhas que ,imóveis ,
olham o mar com solenidade.
Penso. E sinto falta.
Das conversas  , das padarias ,
da amizade ,da Filosofia ,
no Largo de São Francisco.
Deus te preserve sempre lindo
livre do maniqueísmo,
mantendo-te sempre assim, eclético ,
meio mundano , meio místico .

QUERIA TE AMAR INTEIRO

Queria te amar inteiro
mas te amo dividido :
parte de mim te adora ;
parte não contém o grito .
A outra parte se diverte
ao ver as duas em conflito.
E há ainda uma quarta parte
que faz das três um texto,
um escrito .
Queria te amar inteiro
mas te amo em capítulos
primeiro , segundo , terceiro ,
cada um , um outro título.
Cada dia um novo cenário, um novo tema  e enredo ,
dias de vida e coragem ;
outros de covardia e medo
Queria te amar inteiro
mas não posso , sou colagem ,
e só na tua presença
sinto alguma integridade.
Tu és o porto ,eu o marinheiro
nessa amorosa viagem .
Não posso te amar inteiro
pois de ti é que vem minha unidade.

QUERÊNCIAS

Quero alma,
paixão,
arte.
Parte
da minha herança
humana,
leiga.
Destarte,
quero uma mulher meiga,
terna ,
que me acaricie e tranqüilize,
meu corpo e espírito pacifique,
me crie ,
para que eu posa criar.

POESIA FORTE

Ondas de choque em meu ouvido
liso , de tanto que desgasta ,
e rola nas bordas
de línguas tortas
que me enlaçam em suas armadilhas
trilhas
de selvagens matilhas
ilhas , sem comunicação
com o resto da civilização .
Homens-província
mudos barulhentos
que me enlouquecem com seus argumentos
tormentos
sem lógica ,
sem organização .
E aí , repentinamente ,
é como se , lentamente ,
o todo silenciasse , respeitoso ,
e súbito , surge um som delicioso ,
que me distrai e atrai , imperativo .
Nesta hora , a poesia forte ,
toca no meu ouvido.

sábado, 5 de março de 2011

POESIA DA SEGUNDA FEIRA


A
 poesia desapareceu.
Estou quieto
surdo ao daimon
que me circunda ,aflito,
sem conseguir penetrar esta redoma
que me envolve e esmaga.

O ar se extingue
dentro
trazendo vertigem e  astenia
sofrimento.

E a poesia
como uma sangria
esvai-se em esguichos
roubando-me a vida.

Fiel ao meu compromisso
de traduzir em palavras
emoções
descrevo aqui minha desdita.