sábado, 5 de março de 2011

O MAR


Iludes-me em tua calma aparente
a ocultar uma borrasca iminente
furacões e tormentas disfarçadas ,
ainda por chegar.
Perdido em considerações mis
comove-me que em tua imensidão
possas ainda ter gestos tão gentis
como este de vir meus pés beijar.
Na minha pequenez de mamífero
observo , respeitoso e quieto ,
tua oceânica imensidão ,
perplexo.

O GRAAL


Acredito sinceramente
que ainda sou gente
e não sucumbi ao estado de coisas
em que mergulhou parte da humanidade.
Eu sou parte da outra metade
aquela que quer ser melhor a cada instante
como pessoa ou  cidadão integrante
de uma cidade  ou civilização .
Todos buscamos nosso grupo
todos fazemos uma opção
todos queremos amor , atenção ,
respeito por nossa palavra
queremos alimento , uma casa ,
   

 saúde e prosperidade ,
mas antes de tudo queremos felicidade
para nós mesmos e os que amamos ,
dizia Descartes.
Hoje , felicidade como meta , transformou-se em paz ,
tranqüilidade de espírito , até mais ,
o reencontro com a divindade do nosso interior ,
e
num planeta marcado pela guerra e pelo horror
que dizem formado  na maioria por ateus


onde muitos supõem não existir lugar para Deus
são muitos os que procuram o invisível e intocado ,
decididos , em busca do sagrado ,
o Graal , que nunca é definitivamente encontrado ,
que está sendo achado todos os dias
às vezes com dor e agonia ,
às vezes com esforço , mas com alegria.
E que disposição na busca vejo em alguns
sejam alemães ou  de Garanhuns
em todos percebo a mesma fome do eterno
a mesma busca de um significado pétreo
neste emaranhado de valores e condutas
em que se transformou a pós modernidade .
Curioso , ninguém mais busca a Verdade ,
no máximo querem a sua verdade pessoal
fundamental
para o auto - aperfeiçoamento .




Ainda existem peregrinos
santos e buscadores .
Ainda se abandona um jardim de flores
pelas agruras de um caminho de pedras e lama
desde que desse modo nos redescubramos criança
fascinados pela obviedade ,
nosso ser , nossa identidade ,
oculta na crosta da prática social .
O homem , esse civilizado animal ,
como Galahad ou Sir Percival ,
busca ainda seu próprio Graal

que o reintroduzirá na perdida plenitude .
Viver , para alguns , ainda é a busca da beatitude .
Abençoados sejam.

NA ACADEMIA



Pra onde iam meus olhos
Naqueles dias tão calmos?
Que paisagens perscrutavam
Inocentes que eram, então,
Enquanto o nada contemplavam
 Naquela eterna primavera-verão?
O vazio me preenchia fundo,
Nesse tempo de plenitude
Nobre e belo era meu mundo
Alma imersa na beatitude


Limpo era o ar que respirava
Tranqüilo meu pensamento
Pranayamas, asanas, prathyahara,
Bem estar, contentamento.
Lapidar, embelezar a mente.
Aperfeiçoar o corpo, a personalidade.
Tudo feito com determinação e esmero
Carinho, amor, serenidade.
Será que foi tudo inútil?
Terá sido tudo apenas um engano?
Onde estão as conseqüências
De um trabalho tão santo?
Talvez o tempo responda,
E resgate meu desencanto.

Pelo menos , por agora , aqui em frente a tela , recordando as coisas que eu mesmo ensinava ,
olho para mim mesmo , ali , sozinho na janela ,
e lembro que  sempre que a onda era lançada ,
por mais fraca que fosse , rebatia e voltava .

Dezesseis anos depois aguardo o eco
dos mantras que naquela época eu cantava .

MODERNOS FARAÓS



“gente não precisa ser
sempre original
ser igual é legal”.
Vânia Abreu
cantora de MPB
Pouco revelam as janelas
das muitas dores , mazelas ,
dos modernos sarcófagos , sinistros ,
envolvendo empresários ,corretores ,ministros, eternizados no formol da rotina .
E a semelhança dos faraós antigos ,
repetem a mesma e triste sina , 
quando se embalsamam , enterrados ,
por causa de mitos  supersticiosos ,
e juntos levam seres vivos , “escravos” ,
ansiosos por posições mais altas
que os servirão nas dimensões dos mortos
quando atravessarem o rio das almas .

terça-feira, 1 de março de 2011

LEMBRANÇAS

Quase sempre estive assim,
Desatento, despreparado.
Quase sempre fui amado
E parte de meus dias foi apático
Quase sempre vagueei incerto
Tão distante, tão perto.
Quase nunca compreendi a dor
Minha, de outrem.
Quase sempre tive alguém
Outras vezes, sozinho, esperei.
Sorri; chorei.
Com marcas, traços,
Sem manchas.

Assim resumo minhas andanças

INTIMIDADE

temos , todos , silêncios
espaços helênicos ,
preservados no recato
do universo interior

tenho também meus silêncios
pausas nos movimentos
nanogramas de sentimentos
resguardados com pudor.
(o nada é o tambor
que marca o ritmo do tudo
como pode ouvir-se o canto
sem que o resto fique mudo ?)

meus silêncios são , então ,
de minha canção , uma parte ,
e juntos ditam o tom e o ritmo
de minha própria intimidade .

IMAGEM

Reflito sobre o reflexo que contemplas
assim, imóvel, ao pé do espelho ,
orgulhosa
O que vês nesse vidro que te mostra?
Denúncia de distância próxima ,
história que se desenrola , justaposta ,
do encontro da imagem posta
no armário , na  porta ,
que se abre para  roupas tortas ,
como o corpo que se projeta.
Proposta , sem resposta
sem jeito de um e outro se encontrar.
Mesmo assim , distanciados
na virtualidade que separa contempladora e contemplado
o fascínio do visível intocado
determina o êxtase e a necessidade de olhar.