sábado, 12 de março de 2011

EROS E O ALIMENTO

Minha mão erra  ,
por cada centímetro de tua pele  ¾
monótono , no que é visível ,
o jantar prossegue .

Conversamos amenidades
falamos da música , da idade .
Só ênfases descabidas
denunciam excitação .
Mais sábia ,
avança minha mão ,
e tolices ganham indevida intonação .


Sua boca balbucia as palavras ,
num discurso anormalmente plácido ,
a comida no ar , parada ,
à espera não dos dentes  , mas do orgasmo .

DEVOÇÃO

Suor exposto à luz ,
teu corpo compõe a cena ,
no fundo do lençol azulado .

Linhas que oscilam , lindas
constróem a estrutura nua ,
como cores fortes de um quadro .

A luz atravessa as gotas
transformadas em prisma natural
que difunde na penumbra do ambiente
aspectos de catedral .

Dormes tão tranqüila ,
respiração profunda ,
visão de ternura infinita .

Olho teu corpo ,relaxado ,
aqui na cama , sentado ,
e penso : como és bonita .

CORPO NEGRO

Frescor agradável que se alastra
odores da dignidade da raça
etnia que o erotismo encarna.

Corpo negro
deitado ,
saudável pulsação
no espaço ,
pairando envolvente ,
no quarto ,
o cheiro de fêmea,
marco
de intimidade animal ,
tato
que surfa no suor da pele :
ato.

Na escuridão arfante ,
o membro agradecido e latejante ,
repousa ainda dentro do amante ,
hesitante.

CONTEMPLAÇÃO

Erótico traçado
misto
outras vezes visto,
mas tão raro
conhecido e sempre novo,
território do ócio , do gozo ,
da vertigem ,
proibido para a virgem .
Erótico traçado
perímetro da loucura
que a mão percorre , nua ,
em busca do já sabido ,
embora sempre desejado .
Erótico trançado , trancado ,
e sempre a se libertar ,
orgasmo eternamente aprisionado
em busca de ar .

INÍCIO DE NOVO LIVRO


ERÓTICA
Mario Sales

Abril 1995


"Não é pavoroso fazer de sentimentos necessários e regulares uma fonte de miséria interior e dessa forma querer fazer da miséria interior , em todo homem , algo necessário e regular?... graças aos cochichos e aos ares de mistério da Igreja em todas as coisas eróticas ela fez com que até em nossos tempos, a história amorosa se tornasse o único interesse efetivo que é comum a todos os círculos, em um exagero inconcebível para a Antigüidade e que um dia ainda dará lugar à zombaria."

Nietzche ,in Aurora, pág.76


domingo, 6 de março de 2011

TUA PELE

É tua pele que me motiva:
quente ,
viva.
Não quero uma amiga,
nem palavras,
ou solidariedade:
quero a carne,
o toque,
física realidade .
Verdadeiramente
é isso  que me preenche,
densificando meu sentimento,
referenciando minha paixão ,
amor de  ação,
movimento.
Tantas idéias ,
tantos desejos,
me encheram de anseios
e frustrações ,
me fizeram mestre em elucubrações
escravo de fantasias
prisioneiro de lembranças.
Agora quero a liberdade da vida, das reentrâncias ,
a aspereza das dobras,
a suavidade das curvas,
tato, sem idealização ,
sem culpas.
E  se, nesse momento
um suspiro brotar,
sem susto,
estarei tranqüilo:
será um suspiro justo

SORTILÉGIO

Demora-se o momento
arrasta-se a hora;
agora
não há imagem nem idéia.
Do fundo da paidéia
no silêncio do incenso,
conjuro o espírito da poesia ,
da mania ,
da arte , do som ;
o dom
da música e da narrativa
para que traga sua bênção criativa.
Ritual de chamamento ,
mágica convocação ,
manifestação na palavra
da sensação .
Sortilégio de espectros
indistintos;
em busca de traços sucintos,
contornos,
rostos,
máscaras de expressão.
Surgem então os primeiros vórtices,
torvelinhos de letras ,
furacões consoantes,
vogais um pouco mais nítidas ,
sedas,
para as vestes líricas.
Vêm ainda perdidas em profusão,
soltas,
loucas,
mariposas em torno do lampião.
Os ventos da criação, agitados,
espalham sílabas pra todos os lados,
em minha cabeça greco - carioca,
toca
onde se estoca a provisão de frases e termos rebuscados
para o inverno branco do papel.
Mel
para meus neurônios cansados,
ansiosos por retirar
do ainda - não - expresso
seu véu.
Riscos à êsmo
cenas ainda turvas, obscuras,
lampejos
que riscam a mente,
que contempla tudo estática,
silente.
A velocidade dos fachos se reduz, então,
desenhando pseudo - perímetros,
ora de quilômetros,
ora de centímetros,
pulsação que propõe
e, em seguida, dispõe
o proposto,
apagando a cena
desfazendo um rosto.
Num minuto julgo 
delinear um vulto;
no outro recuo, confuso,
e aguardo mais um pouco,
até que defina-se o contorno.
O que surge, no entanto, é ainda incerto,
tortuoso,
complexo.
Mais:
duplica-se num reflexo
e amplia-se num outro e negativo universo.
Volta-se sobre si mesmo como Narciso
paralisado por sua própria forma no espelho
e sem que eu fosse a despertá-lo com meu grito
desvanecer-se-ia sem produzir poema ou texto.
(é função do poeta ordenar os espasmos das imagens
para que o caos , transmutando-se em paisagens,
faça que o disperso se condense em verso.)

O poema avança em rodopios redundantes,
perplexo por sua estética errante,
procurando transformar-se em sentido .
E, pasmo, por mais que a situação pareça estranha,
constata que o enredo que se forma,
mostra ,
ainda que de maneira torta,
uma visão panorâmica de suas entranhas.

Então, após este complexo estratagema,
nasce o poema.